Google implementa cabo submarino "Nuvem" em Portugal: Sines terá ligação direta com os Estados Unidos via Açores e Bermudas
A Google avança com mais um marco em sua rede global de infraestrutura de cabos submarinos, e Portugal figura diretamente neste novo capítulo. O projeto, batizado de "Nuvem", conectará Sines aos Estados Unidos, passando pelos Açores e pelas Bermudas. A apresentação oficial está marcada para esta terça-feira no Oceanário de Lisboa.
O sistema transatlântico possui cerca de 6.900 km de extensão e utilizará 16 pares de fibras ópticas para garantir ligações de baixa latência e alta capacidade entre Portugal e a costa dos Estados Unidos. As autoridades portuguesas reconhecem o projeto como de interesse público, tendo concedido as licenças necessárias para sua implantação.
Uma iniciativa complementar, também anunciada pela Google em 2025, chamar-se-á "Sol" e interligará os Estados Unidos, Bermudas, Açores e Espanha, criando uma malha digital mais ampla através do Atlântico.

Um cabo que percorre milhares de quilômetros
Com aproximadamente 6.900 quilômetros de extensão, o cabo Nuvem representa a primeira ligação direta entre Portugal e os Estados Unidos. A operação está programada para começar ainda este ano, com pontos de amarração confirmados em Sines, consolidando o país como hub estratégico nas comunicações digitais transatlânticas.
Mas qual a real importância desses cabos? Contrariando crença comum, não são satélites que sustentam a internet global. São esses cabos de fibra óptica no fundo oceânico que transportam praticamente todo o tráfego intercontinental, desde ligações telefônicas e mensagens até vídeos e transações financeiras.
Como se instala um cabo no fundo do mar
O processo inicia muito antes de qualquer embarcação entrar em cena, com estudos detalhados da rota: profundidade, temperatura do leito marinho, atividade sísmica, rotas de pesca e cabos já existentes na região.
Em seguida, um navio especializado transporta o cabo, armazenado em grandes bobinas, liberando lentamente a estrutura ao longo do trajeto, permitindo que ela assente no fundo oceânico com folga calculada para acompanhar o relevo marítimo.
Próximo à costa, onde o risco de danos causados por âncoras ou redes de pesca é maior, o cabo geralmente é enterrado com equipamentos específicos.

Investimento em cabos submarinos: benefícios e vulnerabilidades
A principal vantagem dessa tecnologia reside em maior capacidade de transmissão, redução significativa de latência e custos inferiores quando comparados às conexões via satélite.
Para nações com territórios insulares, como Portugal, dispor de múltiplas rotas alternativas proporciona maior resiliência operacional: caso um cabo sofra interrupção, o tráfego pode ser desviado para outras vias disponíveis.
Por outro lado, esse tipo de infraestrutura exige alto investimento — estima-se entre 30 e 50 mil dólares por quilômetro — e demanda tempo prolongado para instalação completa.
Além dos custos elevados, cabos submarinos não são imunes a falhas. Anualmente, registra-se entre 150 e 200 incidentes em todo o globo, a maioria decorrente de atividades humanas acidentais, como redes de pesca e âncoras.
Somam-se a isso preocupações crescentes quanto a sabotagens deliberadas, assunto que ganhou destaque na Europa após ocorrências no Mar Báltico. Em resposta, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) lançou a operação Baltic Sentry para intensificar a proteção dessas infraestruturas críticas.

Portugal investindo em novas ligações submarinas
O cabo Nuvem chega num momento em que Portugal está reforçando toda sua rede de cabos submarinos, conforme relatado pelo Expresso.
Encontra-se em andamento a substituição do sistema CAM, que conecta o continente aos Açores e à Madeira desde 1999, pelo novo Atlantic CAM. Trata-se de um projeto de 190,4 milhões de euros, com lançamento ao mar previsto para o segundo semestre de 2026 e entrada em operação a partir de meados de 2027.
Nos Açores, sete ilhas permanecem dependentes de um sistema instalado em 1998, já além da vida útil estimada. Por isso, o novo Anel Açores deverá ter prioridade nos próximos anos.
Já na Madeira, a EMACOM prepara a substituição do cabo que liga a ilha ao Porto Santo, com validade técnica chegando ao fim em 2028.
Internacionalmente, Portugal já está conectado a sistemas como SAT-3/WASC, EllaLink, WACS, ACE, Equiano e 2Africa — cabos que garantem acesso à Europa, África, América do Sul, Oriente Médio e Índia.
O Visão Coruja manterá vigilância ativa sobre os desenvolvimentos nesta área de infraestrutura de cabos submarinos e suas implicações estratégicas para países, empresas e consumidores.
Acompanhe nossas análises regulares sobre novos projetos de conectividade transatlântica, desafios técnicos de instalação e movimentações relevantes no cenário internacional de comunicações físicas.
