Pesquisa portuguesa desenvolve grafeno capaz de reduzir detecção por radar em aeronaves e drones
Portugal pode estar prestes a assumir uma posição de vanguarda no desenvolvimento de tecnologias furtivas. Pesquisadores do país criaram um material inovador à base de grafeno com capacidade de absorver ondas de radar, diminuindo de forma significativa a assinatura eletromagnética de drones e aeronaves militares — o que, na prática, pode tornar esses veículos muito mais difíceis de detectar pelos sistemas de vigilância convencionais.

A GTechPlasma, empresa resultante de um spin-off do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear (IPFN), ligado ao Instituto Superior Técnico, está na dianteira do desenvolvimento de uma inovação tecnológica que pode transformar o cenário europeu de sistemas furtivos. Num mercado onde alternativas são escassas, o projeto busca posicionar Portugal como ator estratégico em pesquisas de defesa.
O núcleo da inovação reside no uso do grafeno, material composto por uma única camada de átomos de carbono. Embora apresente espessura mínima, o composto destaca-se por propriedades mecânicas, elétricas e térmicas excecionais — características que têm despertado interesse de múltiplos setores industriais.
A GTechPlasma emprega método proprietário baseado em plasma para a produção do material, utilizando precursores como etanol ou metano. De acordo com a organização, essa abordagem viabiliza controle preciso das propriedades do grafeno em escala atômica, adaptando-as conforme a aplicação específica desejada.
A prioridade atual concentra-se na criação de revestimentos especializados com capacidade de absorver radiação eletromagnética, abrangendo inclusive as frequências operadas por sistemas de radar — aspecto fundamental para reduzir a detecção de veículos aéreos em operações militares.

Revestimento de grafeno pode reduzir assinatura de radar de caça ao nível de um pássaro
Um dos aspectos mais notáveis do projeto conduzido pela GTechPlasma diz respeito ao potencial impacto sobre a aviação militar. Bruno Soares Gonçalves, cofundador da empresa, afirma que as projeções apontam para um cenário surpreendente: um caça F-16 recoberto com o material poderia apresentar uma assinatura de radar comparável à de uma ave.
Isso não equivale à invisibilidade total, como ressalva o próprio pesquisador. O efeito prático é que a detecção do veículo aconteceria mais tardiamente ou exigiria maior esforço dos sistemas de vigilância — diferença que, em contexto de operações militares, pode representar margem decisiva entre sucesso e fracasso de uma missão.
Mercado europeu carece de soluções equivalentes
A iniciativa portuguesa ganha relevância adicional quando se observa o panorama internacional. Conforme relatam os responsáveis pela GTechPlasma, a Europa hoje não conta com tecnologia equivalente na mesma categoria.
As soluções de ponta concentram-se nos Estados Unidos e são objeto de rigorosas limitações de exportação — caso dos revestimentos aplicados aos caças F-35, cuja transferência para terceiros é estritamente controlada.
Por essa razão, a expectativa é de que uma alternativa concebida em solo português possa diminuir a dependência europeia em relação a tecnologias estadunidenses em um domínio particularmente sensível do ponto de vista estratégico e de segurança.

Do laboratório à linha de produção: grafeno português avança para fase industrial
A pesquisa conduzida pela GTechPlasma já transcendeu os limites do ambiente laboratorial. Atualmente, os equipamentos da empresa conseguem fabricar aproximadamente 40 miligramas de grafeno de alta qualidade por minuto. O desafio imediato consiste em elevar substancialmente esse volume por meio da industrialização do processo produtivo.
Essa etapa será conduzida pela Plasmaphene, companhia sediada em Vila Viçosa e amparada pelo programa Compete 2030. A empresa terá a incumbência de escalar para produção em larga escala a tecnologia concebida pela spin-off portuguesa.
Tintas e revestimentos são o produto final visado
Por ora, o grafeno gerado pela GTechPlasma apresenta-se como um pó de granulometria muito fina. O plano da empresa, contudo, é ofertar soluções prontas para aplicação direta — tintas e revestimentos que possam ser empregados sobre superfícies de drones, aeronaves e demais equipamentos de uso militar sem necessidade de processamento intermediário.
O primeiro teste prático nessa direção já está em curso. A GTechPlasma encaminhou cerca de 260 gramas do material a um fabricante português de drones, que está avaliando seu desempenho em aplicações voltadas à absorção de sinais de radar. Os resultados desses ensaios devem orientar os próximos passos rumo à comercialização.

