Painéis solares em ferrovias: O caso suíço e a expansão europeia
A tecnologia que permite transformar trechos de linhas ferroviárias em unidades de produção de energia solar ganhou consistência prática após os resultados positivos de um projeto pioneiro na Suíça. O caso tem gerado interesse de operadores ferroviários em diversos países, com Itália e França demonstrando avanços concretos rumo à replicação do modelo.

O Projeto piloto suíço
Em abril de 2025, foi inaugurada no cantão de Neuchâtel, próximo à vila de Buttes, a primeira central solar removível instalada sobre uma linha ferroviária ativa. O projeto foi desenvolvido pela startup suíça Sun-Ways, fundada por Joseph Scuderi, em parceria com a empresa de manutenção ferroviária Scherzer.
As especificações técnicas confirmadas do sistema são:
- 48 painéis solares de baixo perfil
- Potência combinada: 18 kWp (quilowatts de pico)
- Extensão da instalação: 100 metros entre os trilhos
- Produção energética registrada: aproximadamente 16.000 kWh no primeiro ano de operação
Segundo relato da própria Sun-Ways, mais de 11.000 trens passaram sobre os painéis durante os catorze meses iniciais de funcionamento, sem comprometer a estabilidade ou segurança da instalação. Os painéis foram concebidos para permanecerem baixos o suficiente para permitir a passagem segura dos comboios e serem removíveis sempre que trabalhos de manutenção nos trilhos se fizerem necessários.
Um elemento diferenciador do projeto é o método de instalação: um trem especialmente equipado realiza a colocação dos painéis, capaz de instalar até 1.000 m² de módulos fotovoltaicos por dia. Esta característica reduz custos de implementação ao aproveitar a logística existente de manutenção ferroviária.
Indicadores de viabilidade
Os dados produzidos no primeiro ano sugerem viabilidade técnica e energética. A produção de 16.000 kWh equivale, segundo comparações estabelecidas pela imprensa especializada, ao consumo anual médio de uma residência britânica totalmente eletrificada (aquecimento, água quente, iluminação e eletrodomésticos).
O projeto estava originalmente previsto como teste trienal. Contudo, conforme noticiado pelo Euronews Earth, os resultados positivos verificados após apenas um ano tornaram provável a transformação da instalação experimental em sistema permanente ao longo do trajeto.
Interesse e planos de expansão na Europa
O sucesso do teste suíço desencadeou manifestações de interesse de operadores ferroviários em múltiplos territórios:
Itália
A gestora de infraestrutura ferroviária italiana encontra-se na fase de preparação para um projeto-piloto próprio. Segundo fontes citadas pela Euronews, a previsão aponta para o lançamento desta iniciativa antes do final de 2026, colocando o país como candidato provável a adotar a tecnologia em seguida à Suíça.
França
A SNCF, operadora ferroviária nacional francesa, já deu avanço concreto através da iniciativa chamada SOLVEIG (nome que remete às "trilhas do sol"). Lançada no início de 2025, a iniciativa está sendo testada no centro técnico de Achères, localizado em Yvelines, a oeste de Paris.
O sistema prototípico francês utiliza painéis solares reversíveis e modulares contêinerizados com baterias integradas. Este desenvolvimento foi realizado pela agência de design multidisciplinar AREP, em colaboração com departamentos de Tecnologia, Inovação e Projetos da SNCF e com a subsidiária SNCF Renouvelables.
A estratégia energética da SNCF inclui metas quantificáveis ambiciosas: a companhia estabeleceu o objetivo de instalar 1.000 MWp (1 GW) de capacidade solar em suas terras disponíveis até 2030. Os projetos-teste em linhas ferroviárias compõem esta visão mais ampla de expansão da produção interna de eletricidade verde.

Outros territórios
Além das iniciativas europeias, registros indicam interesse de operadores ferroviários asiáticos. A Coreia do Sul teria já aprovado projeto próprio na mesma modalidade.
Racional estratégico da tecnologia
A proposta das ferrovias solares fundamenta-se em três vantagens estratégicas identificadas pelas fontes consultadas:
Não ocupação de terrenos adicionais: As linhas férreas existentes já possuem corredores definidos, evitando conflitos com áreas agrícolas, florestas ou encostas montanhosas frequentemente afetadas por grandes instalações fotovoltaicas convencionais.
Manutenção integrada: A infraestrutura ferroviária requer monitoramento regular, tornando relativamente econômica a incorporação da instalação e manutenção dos painéis aos cronogramas já existentes.
Potencial de conexão direta: Há estudos em curso para conectar os sistemas não apenas à rede elétrica convencional, mas diretamente aos subestações ferroviárias ou ao sistema de tração dos trens, otimizando o uso da energia produzida.
À data das informações disponíveis, o projeto suíço permanece como único em operação consolidada com passage regular de trens confirmada. Os planos italianos e franceses encontram-se em fases distintas de desenvolvimento, com a França apresentando avanço mais substantivo através do programa SOLVEIG.
Esta evolução tecnológica representa uma opção específica dentro do universo mais amplo de estratégias de expansão da capacidade solar, oferecendo caminho alternativo aos desafios de uso do solo enfrentados por projetos fotovoltaicos tradicionais.
