Os horrores da varíola

A varíola matou 300 milhões de pessoas antes de ser erradicada. Este homem foi fotografado nos Estados Unidos em 1881 com varíola ativa. A doença matou cerca de 30% dos infectados ao longo da história e deixou os sobreviventes marcados para sempre.

As feridas que cobrem o rosto dele são pústulas — bolhas cheias de fluido infectado que se formavam por todo o corpo, incluindo dentro da boca e da garganta. Muitos doentes morriam sufocados pela inflamação interna.

A varíola é uma das doenças mais antigas conhecidas pela medicina. Evidências do vírus foram encontradas na múmia do faraó egípcio Ramsés V, morto por volta de 1145 a.C. — há mais de três mil anos. Durante esse tempo todo, o vírus Variola major circulou pelo mundo sem que ninguém soubesse exatamente o que era, como se espalhava ou como combatê-lo.

O que a humanidade sabia é que ele matava cerca de um terço dos infectados. Os dois terços que sobreviviam ficavam com cicatrizes permanentes espalhadas pelo corpo. Uma parte significativa perdia a visão — a varíola foi uma das principais causas de cegueira na história. Estima-se que o vírus tenha matado 300 milhões de pessoas apenas no século XX, antes de ser erradicado.

Antes da vacina, a solução era a variolação — um procedimento arriscado que existia há séculos na China, na Índia e no Oriente Médio. O método consistia em obter fluido ou crostas de uma pessoa com varíola e introduzi-las deliberadamente numa pessoa saudável, realizando um pequeno corte na pele. A ideia era provocar uma infecção controlada que gerasse imunidade. Funcionava em parte, mas também causava mortes e, às vezes, provocava surtos em novas regiões.

A virada aconteceu em 1796, na Inglaterra. Um médico chamado Edward Jenner notou algo que as pessoas ao seu redor viam há décadas sem compreender: as mulheres que ordenhavam vacas e contraíam varíola bovina — uma versão mais branda da doença que afetava o gado — raramente desenvolviam a varíola humana. O organismo delas parecia reconhecer o vírus bovino e utilizar esse reconhecimento como defesa contra a versão humana, muito mais perigosa.

Jenner testou a hipótese em um menino de oito anos chamado James Phipps. Inoculou o vírus bovino no garoto. Semanas depois, expôs o menino à varíola humana. O menino não adoeceu. O experimento foi repetido e os resultados confirmados. Jenner denominou o procedimento de vaccination — do latim vacca, vaca — e a palavra entrou em todas as línguas do mundo.

A partir daí, a mobilização foi global e lenta. Campanhas de vacinação em massa levaram décadas para alcançar regiões remotas. Em 1967, a Organização Mundial da Saúde lançou um programa intensivo de erradicação. Em 1980, a OMS declarou oficialmente que a varíola havia sido eliminada do planeta — a única doença infecciosa humana erradicada pela ação coordenada da medicina até hoje.

Erradicar a varíola custou séculos de tentativas, milhões de mortes e um esforço global sem precedentes. Mas o resultado está aí: desde 1980, ninguém mais precisa temer uma das doenças mais letais que a humanidade já conheceu. É, até hoje, a única vitória desse tipo — e um lembrete de que a ciência, quando coordenada e persistente, pode vencer inimigos que pareciam invencíveis.

 
 
Referências
  1. Fenner, Frank et al. Smallpox and Its Eradication. Genebra: World Health Organization, 1988.
  1. Riedel, Stefan. "Edward Jenner and the History of Smallpox and Vaccination." Baylor University Medical Center Proceedings, vol. 18, n. 1, 2005.