Nos EUA, críticas ao ICE podem resultar em visitas não solicitadas de agentes federais

Nos Estados Unidos, manifestar publicamente críticas ao Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira (ICE, na sigla em inglês) pode desencadear uma visita inesperada de agentes federais à residência de quem se pronuncia. Sem mandado judicial, sem acusação formal e, na maioria dos casos, sem que se proceda sequer a uma detenção, o procedimento assume a forma de um alerta silencioso: há alguém, em algum lugar, sendo observado.

Tudo começou com um e-mail

David Streever envolveu-se em uma disputa com o governo federal após enviar um e-mail ao então diretor interino do ICE, Todd Lyons, em que o classificou como "um ser humano monstruoso" e estabeleceu um paralelo com figuras do período nazista. A mensagem, embora incisiva, não continha ameaças concretas nem apologia da violência — restringindo-se, em essência, à livre expressão de opinião crítica dirigida a um agente público.

Apesar disso, o caso tomou proporções inesperadas. Enquanto Streever estava na Finlândia com a filha, agentes federais localizaram sua esposa na residência do casal, em Nova York. Após o retorno dele ao país, uma nova abordagem ocorreu durante o check-in em um hotel na região metropolitana nova-iorquina, quando foi identificado por um agente federal, conforme relatos divulgados.

Diante do que considera intimidação retaliatória, Streever recorreu à Justiça. A ação sustenta que o conteúdo do e-mail configura discurso político — categoria protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos.

Agentes federais do ICE batem à porta de uma casa após os assassinatos de Renee Nicole Good e Alex Pretti por agentes federais de imigração em Minneapolis, no Minnesota, EUA, no dia 28 de janeiro de 2026.

Padrão de intimidação se repete e evoca métodos autoritários do passado

Segundo reportagens veiculadas pela imprensa norte-americana, o caso de Streever não é isolado. O padrão descrito apresenta semelhanças, guardadas as devidas proporções, com práticas de vigilância e intimidação vividas em Portugal durante o Estado Novo — período em que a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) perseguia cidadãos pelo simples fato de expressarem críticas ao regime, frequentemente sem indícios de qualquer infração penal. Bastava uma palavra dita ou escrita, ouvida ou lida por alguém, em qualquer lugar.

Da tela à porta de casa: como o ICE rastreia críticos

O trajeto entre uma postagem crítica nas redes sociais e a aparição de agentes federais na residência de quem a fez não atravessa a mesa de nenhum juiz. De acordo com The New York Times, o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) enviou centenas de intimações administrativas a companhias como Google, Reddit, Discord e Meta, exigindo identificação, endereços de IP e números de telefone vinculados a contas que monitoram ou criticam a atuação do ICE — tudo isso sem autorização judicial prévia.

Em resposta a essa prática, a Electronic Frontier Foundation moveu uma ação judicial contra o DHS e o ICE, buscando acesso aos registros dessas intimações. A organização argumenta que a agência não possui legitimidade para identificar pessoas que criticam sem a devida supervisão do Poder Judiciário.

Dois agentes do ICE filmam a imprensa com smartphones no corredor em frente ao tribunal de imigração, na cidade de Nova Iorque, no dia 11 de julho de 2025.

131 casos abertos sem uma única prisão: o padrão de vigilância do ICE

De janeiro de 2025 a março de 2026, o Escritório de Responsabilidade Profissional do ICE registrou 131 investigações relacionadas a supostas "exposições de dados pessoais e ameaças". Dos 131 procedimentos, nenhum culminou em prisão ou acusação formal.

Entre os casos documentados destaca-se o de Paigelynne Gonyea, que foi abordada em seu próprio local de trabalho — especificamente em uma urna eleitoral — após publicar uma menção agradecendo a um jornal do Minnesota por ter identificado publicamente um agente.

Para respaldar suas operações, o DHS aponta um suposto aumento de 8.000% nas ameaças direcionadas a agentes. No entanto, apuração realizada pela NPR (National Public Radio) constatou que o número efetivo de agressões não corrobora tal argumento.

A força do aviso silencioso

Na ausência de prisões ou acusações formais, visitas domiciliares e cartas de advertência exercem, por si só, efeito inibidor sobre a liberdade de expressão. O mecanismo funciona como intimidação preventiva, dissuadindo cidadãos de criticarem a agência.

O Centro Brennan, organização defensora de direitos civis, classifica a vigilância de mídias sociais conduzida pela Homeland Security Investigations (HSI) — setor de investigação criminal do ICE — como desproporcional e carente de mecanismos transparentes de prestação de contas.

DHS defende proteção de agentes; críticos veem censura disfarçada

Uma representante do Departamento de Segurança Interna (DHS) afirmou que divulgar dados de agentes federais configura ato criminoso e compromete a segurança física desses profissionais e de seus familiares. Para a agência, a prática representa risco concreto à integridade de servidores públicos e aos seus entes queridos.

Contrapondo-se a esse argumento, especialistas e defensores de liberdades civis sustentam que o que o DHS rotula como "exposição de dados" corresponde, na grande maioria dos registros, à circulação de informações já disponíveis publicamente. Não haveria, portanto, verdadeira violação de privacidade, mas apenas acesso ao que já é de conhecimento coletivo.

Do combate ao tráfico ao controle interno: ferramentas do ICE redirecionadas

Os recursos empregados para mapear críticos — incluindo sistemas de reconhecimento facial, leitores automáticos de placas veiculares e a plataforma ELITE, desenvolvida pela Palantir — nasceram com o propósito original: rastrear atividades ilícitas em fronteiras nacionais.

Com o tempo, a mesma infraestrutura tecnológica passou a cumprir nova função. Agora, ela é capaz de associar um simples perfil online ao endereço residencial de indivíduos. Cidadãos que publicaram comentários ou textos sobre o ICE podem, sem conhecimento prévio, já constar nesses bancos de dados internos.

 

O Visão Coruja manterá vigilância ativa sobre os desdobramentos deste caso e suas implicações para a liberdade de expressão e os direitos civis nos Estados Unidos.

Acompanhe nossas análises regulares sobre ações de vigilância governamental, intimidação a críticos e movimentações relevantes no cenário internacional de direitos fundamentais.