Médicos destacam riscos físicos do uso prolongado de smartphones

Sabidamente, as telas dos dispositivos móveis já são conhecidas por roubar horas preciosas de sono e concentração. No entanto, existe outro custo menos discutido, mas que a comunidade médica começou a registrar com maior rigor nos últimos tempos: o desgaste corporal direto decorrente de anos dedicados a observar smartphones.

Saúde digital: o preço oculto das sete horas diárias nas telas

Um relatório recente da DataReportal revelou que os estadunidenses dedicam, em média, sete horas diárias ao uso de telas — um volume tão intenso que o organismo humano começa a demonstrar sinais de adaptação a esse novo ritmo. A questão, porém, é se essa readaptação corporal ocorre de forma benéfica.

Profissionais da área médica e pesquisadores vêm adotando o termo "phone body" para nomear um conjunto de alterações físicas decorrentes do uso excessivo de smartphones. As consequências afetam desde a postura cervical até a saúde ocular e a musculatura das mãos.

A boa notícia é que a maioria desses efeitos pode ser evitada. A má notícia: uma vez estabelecidos, quase nada reverte naturalmente sem intervenção.

Quando o pescoço assume a conta

O problema mais evidente recebe o nome de "pescoço tecnológico" (tech neck). Toda vez que se inclina a cabeça para observar a tela, a musculatura posterior do pescoço precisa exercitar força adicional para sustentá-la.

Nos primeiros momentos, manifesta-se apenas como dor comum. Mas quando o movimento se repete durante anos, a sobrecarga ultrapassa a capacidade compensatória dos discos cervicais, podendo desencadear processos de degeneração óssea e morte celular prematura na coluna vertebral.

K. Daniel Riew, especialista em cirurgia da coluna cervical no Och Spine, vinculado ao New York-Presbyterian/Weill Cornell Medical Center e entrevistado pela revista Inc.com, alerta que já atende com frequência pacientes na casa dos vinte anos — uma faixa etária que praticamente não figurava em sua agenda profissional alguns anos atrás.

 
 
O perigo móvel que acompanha o corpo

Para o Dr. Riew, o smartphone representa um desafio único. Diferentemente dos monitores fixos de escritório, o aparelho móvel acompanha o usuário em todas as atividades, criando uma situação onde a postura adequada acaba negligenciada com facilidade.

O especialista critica inclusive o conselho tradicional de "sentar ereto", argumentando que tal orientação frequentemente resulta em maior curvatura da coluna. Como alternativa, recomenda inclinar o tronco entre 25 e 30 graus, utilizando apoios lombares e para a cabeça. A lógica é simples: transferir o peso do pescoço para a cadeira, e não o contrário.

A advertência final é definitiva: as células dos discos cervicais, uma vez perdidas, não possuem regeneração possível.

Sobre os olhos, a culpa pode não ser da tela do smartphone

O crescimento dos casos de miopia entre crianças é frequentemente vinculado ao uso de telas, mas Donald Mutti, cientista da visão ligado ao estudo de referência CLEERE, argumenta que o problema real pode não estar no dispositivo em si, e sim no tempo ao ar livre que ele substitui.

Uma pesquisa recente, baseada em dados coletados por smartwatches, concluiu que aproximadamente duas horas diárias em ambiente externo oferecem a proteção máxima contra a miopia — desde que cada exposição dure pelo menos 15 minutos e ocorra com luminosidade próxima de 2000 lux, cerca de quatro vezes mais intensa do que a iluminação padrão de um escritório.

Exposições curtas ou com pouca luminosidade, contudo, não parecem oferecer qualquer vantagem.

A boa notícia é que esse patamar de luz é facilmente atingível, mesmo na sombra. Para os adultos, Mutti demonstra preocupação reduzida, considerando que os efeitos das telas, nessa faixa etária, pouco vão além do simples cansaço visual.

Força nas mãos é outro sinal a não ignorar

Um dos efeitos mais sutis do "phone body" manifesta-se na força de preensão manual, indicador utilizado tanto para avaliar saúde geral quanto para estimativa de longevidade.

Embora seja tentador vincular o declínio generalizado dessa capacidade ao uso constante do celular, o sociólogo médico Johannes Beller, da Medical University Lausitz-Carl Thiem, mantém cautela.

Em pesquisa de 2019 publicada na revista científica SSM, equipe liderada por Beller rastreou essa tendência de redução até gerações nascidas décadas antes do smartphone sequer existir.

Na interpretação de Beller, o fenômeno reflete, de fato, transformações mais amplas na maneira como vivemos e trabalhamos, e não a responsabilidade de um único dispositivo.

Para o especialista, a força de preensão possui valor justamente por refletir o estado de saúde geral, não porque as mãos constituam, em si, o problema central.

Em resumo, não se trata do celular em si, mas dos hábitos que ele acaba por moldar: postura adotada, tempo deixado de passar ao ar livre e nível global de atividade física.

 

O Visão Coruja manterá vigilância ativa sobre os desenvolvimentos nesta área da saúde digital e suas implicações para organizações e indivíduos.

Acompanhe nossas análises regulares sobre os custos corporais das telas, medidas preventivas para danos cervicais pelo uso de telas e saúde ocular, e novas descobertas relevantes no cenário internacional de bem-estar em relação aos dispositivos móveis.